O processo de equilibração é homogêneo, mas os estados de equilíbrio que gera não o são, isto é, os estados resultantes são heterogêneos e descontínuos. Portanto, este processo consiste em lograr uma coordenação equilibrada das invariantes funcionais de assimilação e acomodação, que produz os estados de equilíbrio, quando ocorrem as relações entre o sujeito e o ambiente, nas diversas fases evolutivas, durante o desenvolvimento do indivíduo.
Para Piaget, a interpretação de equilibração-equilíbrio não expressa o que convencionalmente se pretende significar com os conceitos de maturação e aprendizagem. Ao contrário, o modelo piagetiano é concebido como algo muito geral, que supõe as contribuições causais da maturação e da aprendizagem, como também inclui ambas.
Certa direção, certa teleologia é atribuída ao desenvolvimento ontogenético pelo modelo do equilíbrio, permitindo predizer-se que os estados superiores de equilíbrio incorporação e integrarão, em uma totalidade mais ampla e mais complexa, os elementos (ações cognitivas) dos estados inferiores, sem anulá-los, nem contradizê-los.
A continuidade destacada por Piaget, no decurso do desenvolvimento, é realizada pelo modelo do equilíbrio, que unifica aspectos evolutivos temporalmente não-contíguos e, formalmente, dessemelhantes, por três maneiras: 1ª formação de sistemas cognitivos em todos os níveis, que se tornam os produtos de um processo comum de equilibração; 2ª os resultados (sistemas) fenotipicamente diferentes deste processo comum podem ter suas diferenças descritas através do emprego do conjunto comum de dimensões descritivas, que Piaget usa para caracterizar os estados de equilíbrio; 3ª a continuidade é assegurada pela relação entre as etapas contíguas, em que os componentes da etapa inferior são elaborados e integrados na nova estrutura, que define a etapa superior.
1. Propriedades dos estados de equilíbrio
Essencialmente, um sistema de equilíbrio é aquele que possui algum tipo de estabilidade, com respeito às forças que atuam sobre ele ou dentro dele.
Alguns sistemas só estão equilibrados em relação às forças que atuam no momento, como é o caso da balança com pesos iguais, nos pratos.
Outros sistemas dispõem de mecanismos corretivos, de realimentação, que mentem a condição de equilíbrio ante as forças introduzidas, como se verifica no termostato, cuja função é manter uma temperatura constante, face a condições térmicas inconstantes. Nos sistemas deste tipo, o desequilíbrio é corrigido mediante a ação automática de forças inversas, de valor contrário.
Os tipos de sistemas a que Piaget aplica o modelo do equilíbrio, evidentemente, não são térmicos, nem mecânicos, mas psicológicos. São sistemas de ações, internas ou externas, que o sujeito realiza no mundo ambiente de objetos e acontecimentos. Considerando-se que as ações é que formam sistemas equilibrados, trata-se, pois de equilíbrios dinâmicos, distintos do estado estático, obtido com o equilíbrio de uma balança.
Os estados de equilíbrio psicológicos podem ser analisados segundo quatro dimensões principais:
1. Campo de aplicação – Sendo compostos de ações aplicadas à realidade, os sistemas psicológicos em equilíbrio podem ser diferenciados em termos do tamanho de ou propriedades de objetos aos quais se acomoda e assimila. Ex.: o campo de aplicação é muito reduzido, no caso da centração em que uma criança, vendo uma bola de argila ser alongada, afirma ter mais argila agora, do que anteriormente.
2. Mobilidade – Refere-se às distâncias espácio-temporais, que as ações do sistema enfrentam, no curso da sua operação, seja motora, perceptual ou conceitual.
3. Permanência – Esta propriedade e a seguinte ( estabilidade ) com a qual está muito relacionada, diz respeito à resistência às mudanças de estado, devidas a mudanças nas informações recebidas – um sistema está em equilíbrio permanente, se os elementos ( objetos, atributos etc. ) aos quais se aplica não mudam seu valor subjetivo, quando são centrados novos elementos. Ex.: Um sistema de classificação está em equilíbrio permanente, pois A conservará sua posição em sua subclasse de B, mesmo quando a atenção se dirija a outras subclasses de B.
4. Estabilidade – Provavelmente esta dimensão é a mais importante da quatro, pois refere-se à capacidade do sistema para compensar as perturbações que tendem a alterar o estado de equilíbrio existente. O termostato, por exemplo, é completamente estável, devido à sua capacidade para anular toda “entrada” térmica.
Na esfera psicológica, a percepção e o pensamento pré-operacional são sistemas de pouca estabilidade, porque as ilusões induzidas pela centração (valorização maior do comprimento, no caso da bola de argila) só são corrigíveis mediante as regulações, como a reversibilidade. Na fase escolar, quando a criança conquista as estruturas operacionais concretas, são alcançadas condições de equilíbrio estáveis e permanentes, plena mobilidade e com um domínio de aplicação muito amplo até incluir a esfera do hipotético, que é conseguido na fase das operações formais, a partir dos 12 anos.
2. O processo de equilibração
O processo de desenvolvimento é concebido, por Piaget, como uma sucessão de estruturas, que entram em equilíbrio. Nesta sucessão, as formas de equilíbrio das diferentes estruturas variam, conforme a quatro dimensões analisada acima. Desta maneira, é reduzido o equilíbrio atingido na fase sensório-motora e seu progresso vai sendo alcançado, à medida que vão se sucedendo fases mais adiantadas do desenvolvimento cognitivo.
Este processo pelo qual as estruturas mudam de um estado a outro se chama de equilibração e o resultado deste processo é um estado de equilíbrio.
Procurando explicar o processo da equilibração, através do qual são atingidos esses estados de equilíbrio, no decorrer do desenvolvimento, Piaget está tentando esclarecer como ocorre a aprendizagem, isto é, a aquisição de novas estruturas e a modificação das estruturas anteriores.
Um dos componentes mais importantes da transição do pensamento pré-operacional, dominante antes dos 7 anos, ao operacional concreto, próprio da fase dos 7 aos 11 anos, é a aquisição de diversas formas de conservação, isto é, a aquisição cognitiva da invariabilidade da quantidade, número etc. diante de determinadas transformações do objeto ( deslocamento no espaço, mudança de forma etc. ), pelo processo da equilibração.
Propondo um modelo do tipo probabilístico para explicar o processo da equilibração, Piaget pretende demonstrar que determinado comportamento são mais prováveis que outros, na interação sujeito-objeto; e que as probabilidades mudam em formas previsíveis, à medida que as interações continuam e que a sucessão fixa de estados de equilíbrio é conseqüência direta das mudanças nas probabilidades.
A explicação piagetiana não precisa recorrer a hipóteses sobre a insatisfação do sujeito, porque as novas estruturas se tornam mais prováveis com o aumento do número de ensaios.
Silvana Pereira Moura.
terça-feira, 13 de julho de 2010
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